segunda-feira, 3 de março de 2008

O rádio como arma

Nos conflitos o rádio é usado como arma estratégica

O rádio é importante durante tempos de paz, mas em tempos de guerra ele é fundamental para manter a comunicação dos grupos políticos com seus aliados e a população. Quando se declara um conflito uma das primeiras e mais importantes ações a serem tomadas é de destruir, fechar ou controlar os meios de comunicação, principalmente as rádios que abrangem um grande território e repassam informações instantaneamente, inclusive para fora das fronteiras geográficas de um estado.


Este controle visa a dificultar a ação inimiga. Foi assim durante a primeira e segunda guerra mundial, onde os envolvidos nos conflitos utilizaram o rádio para se comunicar com suas tropas, dando ordens e informações sobre as posições inimigas.

Guerra psicológica - Além deste tipo de ação o rádio foi e é muito usado na guerra psicológica, onde o que está em jogo não é conquistar terreno, mas as mentes e corações da população. Este tipo de ação foi e é usada em todas as guerras do século XX e início do XXI, como em Angola e Iraque.


A guerra psicológica costuma ser eficiente e crucial para a vitória ou derrota, pois conquistando ou coagindo a população ela pode atrapalhar/ajudar as tropas. Em seu livro Comunicação-mundo: história das idéias e das estratégias, o professor e comunicólogo belga Armand Mattelart afirma que minar a moral do adversário é tão importante quanto as operações de desinformação, produção de falsas notícias e disseminação de rumores sobre o potencial das forças armadas inimigas (Vozes, 1994).

Operar equipamentos de radiodifusão é relativamente simples, são facilmente carregados e montados, mais uma vantagem para este tipo de mídia em relação às outras. A importância estratégica do rádio é vital em qualquer sociedade em paz ou em guerra.


As rádios também são armas durante os conflitos, tanto nas “trincheiras” quanto na guerra psicológica, pois tem o poder de controlar e adulterar informação, fazer propaganda, mudar a opinião pública e convencer multidões. Todos os governos sabem do poder desta mídia, daí o grande controle que alguns governos têm sobre o rádio.


Por Sara Manera

Novas tecnologias, novas perspectivas

Tecnologia digital deve mudar maneira de produzir e ouvir rádio

A digitalização dos acervos radiofônicos e do material produzido pelas rádios já é uma realidade. Cada vez mais emissoras têm páginas na internet onde disponibilizam sua programação, além de conteúdo complementar sobre bandas, artistas, álbuns e notícias.

Segundo Emílio Prado, no seu livro Estrutura da Informação Radiofônica: Esse contexto provoca a reformulação do modo de fazer rádio hoje em dia. Não basta ter apresentadores, noticiaristas e programação musical. O surgimento das rádios na Web incita radialistas a pensarem de modo
abrangente, que inclua a versão na Internet, evitando que sejam passados para trás pelas demais. (Summus, 1989).

Com o advento do rádio digital, as emissoras que transmitem em AM se beneficiarão com uma melhoria na qualidade das transmissões. A qualidade sonora será como a das emissoras FM, que por sua vez, terão qualidade ainda melhor nas transmissões. Equipar uma rádio para a transmissão digital ainda é muito caro, o que presumidamente diminuiria o surgimento de rádios piratas. No entanto, as pequenas rádios e as comunitárias não teriam condições de se beneficiar desta tecnologia.
A radiodifusão digital mudará a maneira de ouvir e produzir rádio, já que este veículo se tornaria multimídia, possibilitando o acesso a outros tipos de informação e participando da convergência tecnológica, unindo vários serviços e formatos em um único aparelho, que pode ser o celular. A interatividade entre ouvinte e rádio seria maior e mais ampla e os conteúdos necessariamente teriam que ser repensados para esta nova forma de escutar.
Por Sara Manera

Foto: www.if.ufrgs.br

Rádio digital e na Internet


Uma nova maneira de fazer rádio

A partir do ano 2000, com a popularização da internet, o rádio tem sofrido uma profunda mudança. A possibilidade de ouvir notícias e músicas pela internet tem tirado o sono de muitos proprietários de rádios, mas também tem aberto o debate sobre o modo de fazer rádio daqui para frente. O rádio na web vai muito além de escutar uma lista de músicas divididas por gêneros musicais ou a transmissão da programação de uma rádio que já existe.

Quando surgiram os primeiros sites de jornais, eles transpunham literalmente o que havia nas suas edições de papel para o formato web, depois evoluíram e foram criando um formato de jornal específico para internet com conteúdo e diagramação diferenciados. É o que deve acontecer com a tecnologia do rádio digital, que daqui a alguns anos começará a se popularizar.

As rádios disponíveis na internet são, na maioria das vezes, páginas de rádios já existentes fora da rede. As rádios exclusivamente da web ainda são poucas, mas assim como as tradicionais estão se dando conta da importância de produzir material diferenciado para este modelo de rádio. As necessidades e características do ouvinte de rádio na web e no dial são diferentes.

Daí a importância de descobrir as características próprias de cada um e suas novas necessidades, ou seja, uma nova maneira de apresentar e acessar notícias, informação, música, entretenimento.

Por Sara Manera
Foto: www.radiolegal.org

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Petróleo e diamantes financiaram guerra em Angola

Disputa de campos de diamantes e áreas petrolíferas dificultou acordos de paz


Depois do fim da guerra fria, no início dos anos de 1990, os oponentes, MPLA e UNITA, perderam seus financiadores internacionais (URSS e EUA). É assim que o petróleo e os diamantes, principais recursos do país, passam a financiar os últimos 12 anos de guerra civil. O governo usou as divisas do petróleo e a UNITA as divisas advindas da venda ilegal de diamantes, retirados das suas áreas de domínio, principalmente no nordeste do país.

Em 1991, foi assinado o Acordo de Bicesse, em Portugal, que previa a realização de eleições livres e democráticas, que aconteceram em 1992, o então presidente José Eduardo dos Santos estava na frente com 49,57% dos votos o que significava a ida para o segundo turno. No entanto, receoso o líder da UNITA, Jonas Savimbi, alegou fraude nas eleições e se retirou da disputa reiniciando a guerra.

“... (a UNITA) refugiou-se no interior do país, onde deu curso a actos de violência contra as populações, à pilhagem de bens e à destruição de infra-estruturas, a um nível nunca antes atingido” afirma José Mena Abrantes no livro Angola em Paz (Maianga, 2005).

Protocolo de Lusaka - Em 1994, foi assinado o Protocolo de Lusaka (Zâmbia), em que a UNITA prometia entregar os campos de diamantes sob sua tutela e desarmar a guerrilha, enquanto o governo daria a vice-presidência ao seu líder. No entanto o acordo não foi cumprido reiniciando a guerra. Mais uma vez Jonas Savimbi não cumpriu as resoluções previstas nos acordos de paz realizados. Com as violações sucessivas dos acordos de paz pela UNITA e a clara intenção em promover o conflito armado o grupo foi perdendo apoio (inclusive de seus próprios membros que começaram a desertar) e aumentando seu isolamento internacional.

O governo de Angola tinha como política a reintegração de ex-militares da guerrilha e acenou com esta possibilidade também ao seu líder.


“Muitos foram os que acederam a este apelo e abandonaram as armas,
reintegrando-se harmoniosamente na vida nacional. Jonas Savimbi e um grupo de
radicais apoiantes das suas teses belicistas preferiram continuar um desesperado
combate por uma causa já sem qualquer sentido, enveredando por crescentes
práticas terroristas contra as populações civis e pela destruição de tudo o que
encontravam pela frente.” José Mena Abrantes (Maianga, 2005).

A guerra civil angolana durou 27 anos, terminando em 2002, com a morte em combate do líder da UNITA. Atualmente a UNITA está integrada plenamente à vida política do país e é um dos principais partidos políticos de Angola.

Eleições legislativas e presidenciais estão previstas para 2008 e 2009, mas ainda não foram marcadas pelo presidente da republica José Eduardo dos Santos. Segundo presidente de Angola, substituiu Agostinho Neto, em 1977 e está no governo há 25 anos.


Por Sara Manera

Ecos do passado

Ocupação européia e descolonização afetam ainda hoje países africanos


Desde o século XVI os europeus estão na África, sobretudo no litoral de onde comercializavam escravos para as Américas e Europa. No século XIX a ocupação do território africano se intensificou com a conquista do interior do continente. Esta ocupação deveu-se à necessidade das potências coloniais de obtenção de matérias primas (ouro, marfim, minérios, etc) e desenvolvimento de mercados consumidores para seus produtos industrializados.

A disputa pela África culminou com a Conferência de Berlim em 1884, em que as potências coloniais dividiram o continente entre si de maneira geométrica não respeitando as características e problemáticas de cada região.

A descolonização dos países africanos teve seu auge nas décadas de 60 e 70. Com a conquista da independência muitos países, principalmente da chamada África Negra ou Subsaariana entraram em guerra civil. Na briga pelo poder econômico e político existia o agravante de que em um mesmo país existiam diferentes grupos étnicos, com divisões religiosas e lingüísticas que tornaram ainda mais complexa e difícil a convivência pacífica entre eles. Em Angola não foi diferente.

Por Sara Manera

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Dicionário de Luanda

Para quem quer entender e ser entendido em Luanda algumas palavras não podem faltar no dicionário:

Mamã: mamãe
Miudo: menino, criança
Ginguba: amendoin
Bué: muito
Candongueiro: motorista de van
Jindungo: pimenta
Kinguila: mulher que faz câmbio de dinheiro nas ruas
Zungueira: mulher que vende coisas na rua
Choco: polvo
Se lixar: se dar mal
Possas: poxa
Kota: pessoa velha, idoso
Dama: mulher
Kuanza: moeda nacional
Gasosa: refrigerante, o termo pode ser usado como propina
Kuduro: ritmo musical que se dança sozinho (os dançarinos vão a loucura)
Kizomba: ritmo musical dançado a dois

Preste atenção!!!

Quando for a Luanda não esqueça de levar sua dama, o miudo e a mamã e de comprar kuanzas em uma kinguila, mas cuidado com os ladrões ou você corre o risco de se lixar. Não se assuste com o trânsito, ele é bué confuso e os candongueiros são meio loucos, gostam de ouvir kuduro e kizomba nas alturas. Se bater a fome as zungueiras vendem de tudo, desde choco assado a gasosa. Respeite os kotas e, possas, se divirta bué!!!!

Estar em Luanda me dá esperança

A cidade toda transpira trabalho. As pessoas são muito empreendedoras, criam seus negócios aproveitando a escassez de serviços e tem possibilidade real de cresimento se gerirem bem seus negócios.

As zungueiras (nome dado para as mulheres que vendem nas ruas) negociam de tudo: sandálias, frutas, vasos plásticos, pão, banana assada, refrigerante, jornal, balas, roupas, panos.....Dá gosto de ver!! Há uma profusão de cores, de falas, de sotaques, de sons.

Existe uma energia para o crescimento, uma vontade de aprender, de saber mais, de vencer na vida, de dar certo. Os jovens, a maioria da população, estão entusiasmados com as faculdades que começam a formar suas primeiras turmas. Eles sabem da importância da educação, seja ela de base ou universitária.

Os jovens são o grande motor de transformação social, são o motivo da minha boa espectativa em relação ao país. Esta foi, acho, a maior lição de Luanda, a de ter esperança e vontade para trabalhar. O país realmente está sendo reconstruido e o cheiro de novidade está no ar.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Mulher angolana sofre com machismo

Uma das coisas que mais me espantaram, infelizmente de forma negativa, é a situação da mulher em Luanda e penso, que em todo o país. Ouvindo as rádios para minha pesquisa sobre sua importância para a reestruturação do país depois da guerra civil, notei as várias propagandas direcionadas à população. Os temas abordados tem sempre cunho educativo, vão desde o uso excessivo de álcool, respeito ao direito de gestantes e idosos nas filas e incentivando a população a jogar lixo nos locais adequados.

Mas a campanha que mais me chamou atenção foi contra a violência doméstica. O machismo aqui é muito forte, as mulheres sofrem com a dependência econômica dos maridos, com o desemprego e uma cultura que privilegia os homens. Quanto mais baixo o nível cultural mais frequente são os casos de violência doméstica, mas isso não significa que o fenômeno seja exclusivo das classes baixas. A violência doméstica, assim como na maiorias dos países, acontece em todas as classes sociais.

O ciúme e o alcoolismo são motivos frequentes de violência, mas este problema ainda é visto como unicamente familiar e não é abordado como um problema social que deve ser tratado pelo estado. Depois de uma guerra longa, que desestruturou muitas famílias e a dificuldade em sobreviver era muito grande, as atenções para outras questões incluindo a violência contra a mulher começam a ser debatidas.

O número de mulheres que vivem sozinhas fora da casa familiar é raro por razões culturais e uma vez que a vida em Angola é uma das mais caras do mundo. Geralmente a moça sai da casa dos pais quando se casa e é comum o casal permanecer na casa dos familiares, devido a falta de emprego e a carestia dos alugueis. Com a melhor qualificação profissional e melhores salários é possível que uma mulher more sozinha, mas é extremamente incomun. Tanto que sempre se especula se não há nenhum “senhor” pagando suas contas.


terça-feira, 25 de setembro de 2007

Angola nos últimos lugares de "boa governação"

Um dos muitos edifícios por reconstruir em Angola
Angola encontra-se em 42º lugar no Índice Ibrahim de Governação Africana, dos 48 países subsarianos
Angola está nos últimos lugares de um novo índice, publicado em 25 de Setembro, a classificar os Governos da África subsariana de acordo com o seu desempenho nos últimos cinco anos.

Financiado pelo reputado multimilionário de telefones móveis, Mo Ibrahim, o Índice Ibrahim de Governação Africana é uma classificação dos 48 países da África subsariana de acordo com a qualidade da respectiva governação e avalia o progresso nacional em cinco áreas chave.

A saber: Protecção Pessoal e Segurança, Estado de Direito, Transparência e Corrupção, Participação e Direitos Humanos, Desenvolvimento Económico Sustentável e Desenvolvimento Humano.

Produzido pela prestigiosa Escola de Governo Kennedy, um departamento da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o Índice deverá, segundo considera o editor da BBC para Assuntos Africanos, Martin Plaut, “provocar um aceso debate.”

‘Espantosos’

Escreve ele que “os resultados deste estudo são espantosos”.

Ruanda em 18º lugar?
Trabalhadores de café no Ruanda
Os africanos podem achar muitos resultados difíceis de compreender
Martin Plaut, editor da BBC para Assuntos Africanos

Embora não constitua uma surpresa que Estados insulares estáveis como as ilhas Maurícias e as Seicheles se achem no topo do Índice e a Somália, que não tem um Governo em pleno funcionamento desde a queda de Siad Barre em 1991, em último lugar, os africanos podem achar outros resultados difíceis de compreender.

Quantos, por exemplo, veriam o Ruanda (18º lugar) como o país que mais melhorou no continente entre 2000 e 2005? Organizações de direitos humanos retratam o Ruanda como um Estado em que a oposição é reprimida e os jornalistas são perseguidos e intimidados.

Isto, considera Plaut, “indica talvez quanto mais credibilidade os académicos depositam no desenvolvimento do que nas liberdades democráticas.”

PALOP

Quanto aos PALOP, Cabo Verde regista-se em quarto lugar na lista de 48 países, seguido, em décimo, por São Tomé e Príncipe.

Moçambique encontra-se em 23º, Angola em 42º e a Guiné-Bissau é o quinto país a contar dos últimos da lista, em 44º lugar.

Dos gigantes da África subsariana, a África do Sul, demonstrou, algo previsivelmente, um bom desempenho de governação, em quinto lugar, mas a Nigéria, em 37º, poderá, tal como Angola, ficar surpreendida de se encontrar abaixo do Zimbabué (31º lugar).

Dos principais países africanos a República Democrática do Congo é a penúltima da lista o que, mais uma vez, constitui uma surpresa visto que, desde os últimos cinco anos, o período em que a lista foi efectuada, o país começou a emergir dos seus longos anos de guerra.

BBC para África (www.bbc.co.uk/portugueseafrica)

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A pobreza em Luanda é familiar

Ruas esburacadas, crianças brincando no lixo, caos no trânsito, desviar de poças de lama não é novidade. É como ver a pobreza nossa de cada dia, só que um pouco piorada. Prefiro enxergar para além da poeira e ver as mulheres desfilando seus panos, equilibrando bacias cheias de laranja ou olhar as trancinhas e missangas dos penteados.

Bola de fogo

O pôr- do- sol é sempre assim, lindo. Não importa se é na parte rica ou pobre da ciddae, o sol brilha para todos.

Foto: Sebastião Delagado














Construção de vala para escoamento de água de chuva. Bairro da Polícia, Luanda.
Fotos: Sebastião Delgado

terça-feira, 18 de setembro de 2007

O melhor peixe do mundo!!!!!

Parace que a noite de Luanda guarda muitos segredos, mas nada como amigos bem informados e apreciadores da boa cozinha para conhecer lugares e pratos inesquecíveis. Aqui vai uma dica valiosa. O restaurante fica na ilha de Luanda, mais precisamente na Chicala, atráz da churrascaria brasileira Chimarrão.

O lugar é simples, limpo, aconchegante e tem simplesmente o melhor peixe do mundo.
Eu tentando conquistar Jane, mimha vizinha aqui em Luanda!!!!!!!!!!!!
Foto: Sebastião Delgado

Luanda - Em construção


Luanda está em obras. De alargamento de avenidas, construção de novas estradas, drenagem de terrenos, canais de esgoto, edifícios empresariais e residenciais.

Os moradores destes novos empreendimentos imobiliários são estrangeiros ou fazem parte da nova classe média angolana, formada principalmente por jovens, muitos dos quais retornaram da Europa e dos Estados Unidos depois de receber educação acadêmica.

Por falta de profissionais qualificados Angola “importou” de outros países médicos, engenheiros, educadores, profissionais da comunicação e enfermeiros inclusive do Brasil.

Nos últimos anos a presença chinesa cresceu bastante sendo comum encontrar cidadãos chineses nas ruas, supermercados, dirigindo seus próprios negócios e nas obras. Muitas delas estão sendo construídas por empresas daquele país.

Angola pode ser considerada a base chinesa na África, pois é seu maior parceiro. Cada vez mais as empresas chinesas investem no continente, sobretudo na área de recursos minerais.

Assim os investimentos em Angola não se restringem à construção civil, mas sobretudo na exploração de petróleo. Angola é o segundo maior produtor da África, perdendo somente para a Nigéria.

Além de ter um solo rico em outros minerais como ferro, chumbo, manganês, mármore e granito. A china tenta diversificar seus fornecedores de petróleo evitando as regiões com grande instabilidade política, pois precisa manter seu padrão de crescimento.

Numa época que as guerras acontecem pelo controle do petróleo os produtores secundários ganham cada vez mais importância.

Por Sara Manera

Foto: Sebastião Delgado

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Angola - vista de perto

A primeira visão de Luanda , ainda do alto, é de uma cidade horizontal, marron, pontilhada com o verde de algumas árvores. A terra avermelhada e o tipo de árvores lembram não a úmida Salvador, mas o semi-árido.

Como cheguei pela manhã tive a oportunidade de conferir o famoso trânsito da cidade. As estradas poeirentas, abarrotadas de carros, muitos novos e de luxo, as pessoas nos pontos esperando a condução.

Estou hospedada em um bairro chamado Kinanga-Ingombota, não muito longe do aeroporto, na casa do jovem talentoso designer gráfico, Seba. Ele e sua ajudante de casa, Lemba, me receberam muito bem.

Hoje, tive o prazer de conhecer de perto, ou melhor de boca, o tradicional funji, de milho com molho de tomate e peixe assado.




sábado, 13 de janeiro de 2007

Darfur e a nova ordem mundial

O que está por traz do conflito no Sudão
Por Sara Manera
A região de Darfur se localiza no oeste do Sudão e faz divisa com 10 países. Esta província esta sendo palco do primeiro conflito do século XXI e já é considerado um dos mais bárbaros.
A crise começou quando em 2003 dois grupos rebeldes atacaram postos governamentais acusando-o de descriminação e abandono da província de Darfur, onde a maioria da população é negra, cristã ou animista. Enquanto o norte do país, onde esta a capital Cartum, é de origem árabe e mulçumana.
Este foi o estopim para que desencadeasse a limpeza étnica da população da região. Forças do exército sudanês e a milícia pró-árabe, Janjaweed (homens de cavalos com armas) apoiada pelo governo, são acusados de bombardear e queimar vilas, matar civis indiscriminadamente, estuprar mulheres e expulsar milhares de pessoas de suas casas. Avalia-se que cerca de 300 mil pessoas morreram desde o início do conflito.
Cerca de dois milhões de pessoas, foram expulsas de suas casas e incham os campos de deslocados. Estes campos se situam no próprio Sudão e em países fronteiriços. O principal a acolher refugiados é o Chade, onde a tensão vem crescendo.

Instabilidade - A instabilidade na região é preocupante. Os campos de deslocados situados na divisa do Sudão com o Chade são constantemente atacados pela milícia janjaweed. O governo Chadiano cortou relações diplomáticas com seu vizinho em abril de 2006 e o acusa de tentar derrubar seu governo.
A preocupação do Chade que o conflito se espalhe por seu território é grande, pois na parte ocidental do país há uma composição étnica semelhante à de Darfur. Os dois governos trocam acusações e o Chadiano já ameaçou expulsar aproximadamente 200 mil refugiados, o que aumentaria ainda mais a crise.

Estupro como arma de guerra - Os estupros são uma prática recorrente, quase compulsória, nos ataques às vilas, às vezes são cometidos na frente da família e dos habitantes do lugar com o intuito de ofender, humilhar a população. Muitas mulheres são seqüestradas e usadas como escravas sexuais antes de morrer ou serem libertadas.
Quando as mulheres deixam os campos de deslocados para buscar lenha, as milícias Janjaweed estão à espreita. As tropas da União Africana (UA) patrulham os arredores, mesmo assim muitas são estupradas. Esta é a maior parte do trabalho dos 7 mil soldadosda UA, que têm um mandato limitado, falta de equipamentos e de pessoal para cobrir uma área do tamanho da França.

União Africana e ONU - A União Africana é um dos poucos entraves para que o governo sudanês e os Janjaweed não dizimem de vez a população de Darfur. A UA quer que a Organização das Nações Unidas (ONU) assuma a missão de paz na região, mas essa hipótese é rejeitada pelo governo sudanês.
O mandato da UA terminou em setembro, mas foi revogado depois que o governo sudanês permitiu que as tropas permanecessem no país. O governo sudanês pondera sobre a possibilidade de aceitar uma força de paz mista, com soldados da ONU e da União Africana.
Com a dimensão tomada pelo conflito e com a pressão da comunidade internacional o governo sudanês se comprometeu a desarmar os janjaweed. Apesar das provas irrefutáveis o governo afirma não armar a milícia que atua conjuntamente com o exército. No entanto este desarmamento não está acontecendo.
A ONU não reconhece em Darfur um genocídio. Segundo a organização o governo do Sudão "não implementou uma política de genocídio". Os responsáveis, porém, podem ser acusados de crimes de guerra e contra a humanidade, e processados pelo Tribunal Criminal Internacional de Haia, na Holanda.
A Organização das Nações Unidas chega ao final deste ano sem conseguir acabar com o conflito em Darfur, sem recursos e sem moral. Estamos vendo a ineficiência de um organismo que tem suas decisões sistematicamente descumpridas pelo EUA, Inglaterra, Israel e pelo Sudão, principais envolvidos nos conflitos mais importantes deste início de século.
A organização ameaçou impor sanções contra o setor petroleiro do Sudão se a violência não fosse reprimida. Em março de 2005 o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para a imposição de sanções às pessoas que dificultarem o processo de paz na região ou violar os direitos humanos, mas até o momento não foram aplicadas. A China e a Rússia se opuseram a esta resolução.
Genocídio é um empreendimento caro e o governo depende dos investimentos externos para financiar suas ações na região de Darfur. Ironicamente a China, vem investindo milhões de dólares no Sudão, país rico em petróleo. Especialistas acusam o país de tentar estabelecer um novo imperialismo no continente e não exigir de seus parceiros comerciais comprometimento com os direitos humanos e o meio ambiente.

O dragão vermelho na África - A China é uma das poucas, senão a única, potência capaz de estremecer a hegemonia americana no século XXI. O país que tem um dos maiores índices de crescimento (aproximadamente 9% ao ano) do mundo precisa de grandes reservas de petróleo para continuar crescendo. Hoje, seu maior fornecedor de petróleo è Angola, que desbancou a Arábia Saudita e se transformou em um posto avançado do país no continente africano.
No início de novembro do ano passado a China recebeu em Pequim 48 líderes de estados africanos no Fórum de Cooperação África-China. Esta foi a maior conferência já realizada pela potência emergente com países africanos para o debate sobre comércio e desenvolvimento.
A China anunciou durante a conferência um pacote de ajuda humanitária e investimentos visando a ampliação do comércio. Segundo o governo chinês os investimentos devem chegar este ano a US$ 50 bilhões (RS$ 107 bilhões). Segundo o Banco Mundial os investimentos triplicaram de 2003 para 2004 e cerca de 700 empresas chinesas estão no continente.
O país busca mercados para seus produtos industriais. A África é um mercado consumidor a ser explorado e um bom fornecedor de matérias–primas, principalmente minérios e petróleo. O continente lucra, pois tem acesso a crédito facilitado e a investimentos além de aumentar suas exportações.
A China ganha aliados no cenário internacional e os países africanos ganham um “padrinho” de peso, que não se intromete em assuntos internos e tem direto a veto no Conselho de Segurança da ONU.
Sentimos hoje o poder da China e podemos avaliar a sua importância no mundo em um futuro bastante próximo. O conflito no Sudão é mais um dos palcos onde a guerra comercial, por poder e influência política acontece.
Com a instabilidade vivida no Oriente Médio, principal fornecedor mundial de petróleo, fornecedores secundários passam a ter importância vital para as potências. Os EUA e a Inglaterra, que vem criticando o governo sudanês e pressionando a ONU para implantar sanções, na verdade lutam por influência em um continente cheio de conflitos regionais, minérios e petróleo.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Iraque: o tiro que saiu pela culatra

Por Sara Manera
Terça-feira (05/12) o provável sucessor de Donald Rumsfeld na Secretaria de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, em sessão no senado confirmou o óbvio. Os EUA não estão ganhando a guerra.

Na quarta-feira, o Grupo de Estudos sobre o Iraque, formado por democratas e republicanos, apresentou relatório com 79 recomendações para uma mudança de estratégia no país. Uma das sugestões é de, pela diplomacia, ter o apoio do Irã e da Síria nas negociações em toda a região do Oriente Médio e de tirar até 2008 todas suas tropas do Iraque.

A ponta do iceberg - Estes fatos são o indício de que ou os Estados Unidos tomam outro rumo no comando do Iraque ou a situação vai ficar ainda mais perigosa. Com o maior poder dos democratas depois das últimas eleições para a Câmara e o Senado, o governo Bush deve ser persuadido a rever seus planos para o país e conseqüentemente para toda a região. Já que a mudança é imprescindível e inadiável sob pena de o governo Iraquiano e os EUA perderem totalmente o controle da situação.

Os Estados Unidos não conseguiram o que queriam no início da guerra. Com o pretexto de acabar com armas de destruição em massa que supostamente o governo de Saddam Hussein tinha, o que depois foi confirmado como falso pela ONU, travou-se uma guerra que se queria curta e eficaz. A invasão do Iraque nem foi curta nem eficaz.

O país na sua situação atual de violência e de desgoverno está inevitavelmente correndo para uma guerra civil. Ou há uma intervenção mais racional e menos colonialista, ou os EUA vão perder ainda mais com a guerra. Há três anos, a deposição do governo parecia ser a melhor escolha para que os EUA mantivessem o controle sobre o petróleo, seus preços e fornecimento, e “modelar” de acordo com seus interesses toda a região do Oriente Médio.

No meio do caminho tinha uma pedra - O governo Bush, com toda sua arrogância, prepotência e abuso da força vem cada vez mais colecionando desafetos, alguns realmente perigosos. O cowboy que encarna o espírito americano disfarçou muito mal as aspirações do império americano. No entanto no meio do caminho para uma dominação política e econômica do Oriente Médio surgiram obstáculos como o Irã e a Síria.

Estes países são considerados potências médias que tem importante papel na região e que não são aliados americanos, por isso os EUA já os colocaram na lista de países que fazem parte do “Eixo do mal”. O Irã é acusado de desenvolver armar nucleares e deve sofrer retaliações caso não abandone suas pretensões. No entanto, a política funciona no esquema do “dois pesos, duas medidas”, ou seja, esta acusação foi feita não por interesse na não proliferação de armas nucleares, mas com o intuito de fragilizar um regime hostil às pretensões norte americanas.

O conflito iraquiano tomou um caminho decisivo, a guerra como foi pensada em 2003 não existe mais. Ou muda-se agora ou a guerra civil será inevitável e aí, haverá mais perdas para todos, principalmente para os iraquianos e para a estabilidade da região.